Monday, April 13, 2009

Fellini 8 e 1/2

Taí um filme que nunca poderia ser colorido. É um filme que adora ser branco e preto.
As vezes vejo filmes PB e noto que na fotografia há uma certa tristeza por não existirem cores, é um preto e branco por falta de opção.

Quando 8 e 1/2 foi feito, ainda não haviam filmes coloridos. Mas o fotógrafo e a direção de arte foram muio além, escolhendo propositalmente pretos e brancos. Isto tudo aliado a uma das iluminações mais genialmente concebidas faz do filme uma obrigação para fotógrafos e iluminadores.

Algum dia vou fazer um filme em preto e branco só para copiar descaradamente a iluminação deste filme.

Thursday, March 19, 2009

Equilibrismos do Artista


"Todo homem mata o amor[..]
o covarde mata dando um beijo,
o bravo mata com um punhal".

Covardia e Coragem são duas palavras que tenho ouvido e pronunciado muito nos últimos tempos. Tenho pensado que as vezes a coragem é algo como o impensado, é algo como ser grosseiro, descontrolado, impulsivo, não refinado. A Coragem não tem nada a ver com a Arte.

Por outro lado, o artista de verdade, aquele que coloca uma arte relevante, algo que está a frente do que se vive, mas não à frente demais que não toque o coração dos viventes, este artista é aquele que ousa. Este é avant-guarde., ele está no batalhão de frente, tomando tiros e mostrando o caminho para as tropas. A covardia não combina com a Arte.

Então afinal de contas em qual corda bamba se equilibra o artista, entre a covardia e a coragem, entre ser relevante e não ser desproposistado, entre ser desmedido e ser refinado? Stanislavski disse que "não se deve pensar 'de alguma forma' ou 'de forma geral' ou 'aproximadamente', pois todos estes termos não pertencem à Arte".

O Artista é um equilibrista entre a coragem e a covardia, se arriscando e fazendo loucuras friamente calculadas para tentar salvar o pouco amor que ainda insiste em sobreviver entre os humanos.

Manuscritos




Pode ser saudosismo antecipado, mas só hoje me dei conta que daqui a alguns anos não existirão mais manuscritos. Adoro manuscritos. Esse aí é da Clarice Lispector.

Thursday, March 12, 2009

Coisas que eu não entendo

"Uma coisa que eu não entendo é por quê a salada vem antes da comida"
de um porteiro para o outro do Colégio Arqui. 

É meio difícil de entender mesmo.

Monday, March 09, 2009

o filme mais esperado do ano (até agora)

Este foi o comentário que ouvi de um comentarista no rádio sobre "Watchmen". Bom, o fato de estarmos na primeira semana de março já o torna sensacionalista, mas enfim, comentaristas charlatões sempre há de se ter por aí.

Watchmen é uma adaptação para as telas da graphic novel de Allan Moore, um dos maiores escritores do gênero que produziu verdadeiras obras primas consistentemente maltratadas por hollywood. Basta ver filmes fracos como "A Liga estraordinária", "From Hell" ou "Constantine" e também as exceções (e aí é opinião de quem não é lá grande seguidor das HQs) do Batman - O  Cavaleiro das Trevas (em muito baseada nA Piada Mortal de Allan Moore) e de V de Vingança.

Ainda assim, o diretor de "300" sentiu que ou ele o faria, ou alguém o faria pior. E assim foi.

O filme foi classificado por um amigo extremamente cinéfilo e fã das graphic novels como "...PERFEITO". O imdb (www.imdb.com) dá 8,5 estrelinhas para o filme, colunistas da folha se dividem, a marina person gostou (não precisa ver a opinião dela, ela gosta de tudo).

Mas toda esta polêmica e discussão não adiantou em nada para empolgar a Cibele, atendente do caixa das Lojasmel-Tem de Tudo, que comentou hoje com sua colega, enquanto eu estava na fila comprando um porta-escova-de-dentes:

-Que vc fez ontem?
-Ai a gente foi ver um filme. Mas era tão chato...
-Sério?
-Sério, era tão chato, não acabava nunca... a gente não aguentou e saiu no meio...
-...
-Um negócio lá de watchmen, uma droga, não assiste! nem passa perto dele porque é uma droga.

Uns vão argumentar que a verdadeira obra de arte causa fortes emoções, não importa quais sejam. Mas eu desconfio que os produtores de hollywood provavelmente prefeririam que a Cibele tivesse gostado. 

Enfim, é a eterna contradição humana.

Quem? Eu? Não, ainda não vi. Aceito convites.

Thursday, November 13, 2008

Janusz Kaminski

Uma das coisas mais legais de se estudar a técnica do cinema é começar a ter prazer na sala escura mesmo nos filmes mais tediosos ou até naqueles mais clichês-água-com-açúcar-marmelada.
Não é que vc fique mais ou menos inteligente, mais ou menos sensível ou mais ou menos bobo, é só que você passa a admirar coisas que nunca tinha notado antes.

Isto no meu caso quer dizer conseguir assistir mais Spielberg e não só "Escafandros e Borboletas". Vejam só que engraçado, apesar do meu poste anterior ter mencionado que o diretor de fotografia do "Escafandro..." era um tal Janusz Kaminski, foi preciso um pouco mais de pesquisa para entender que o cara é o Fotógrafo preferido do Spielberg. Vejam só algns filmes na galeria do rapaz: A lista de Schindler (1993), Jurassic Park (1997), O Resgate do Soldado Ryan (1998), O Terminal (2004), O Escafandro e a Borboleta (2007). (lista completa)

Resumindo, não é porque o roteiro é ruim, ou porque a atuação deste ou daquele é ruim, ou até porque o diretor é o mestre do clichê enlatado, que o filme não tenha algum elemento interessante, ou muito bem executado.

Porque também vâmo combiná, existe alguma outra forma de se ver, por exemplo, "O Terminal" que não seja observando a fotografia de um dos maiores fotógrafos de hollywood? Na verdade existe, mas aí vc vai ter que aguentar o mala do Tom Hanks construindo uma pia no aeroporto de nova iorque.

Monday, October 13, 2008

Filme 5/52: O Escafandro e a Borboleta

Le Scaphandre et le papillon
D:Julian Schnabel
F:Janusz Kaminski
R:Ronald Harwood baseado no livro de Jean-Dominique Bauby
http://www.imdb.com/title/tt0401383/


Filmes são diferentes de livros. Não há como negar. Acho que mesmo cineastas enquanto espectadores reconhecem isto. Mas há muito poucos cineastas que, enquanto cineastas, conseguem entender esta diferença e fazer bons filmes a partir de bons livros.

Julian Schnabel é um destes poucos, e "Le Scaphandre et le papillon" é uma destas boas versões. O filme é baseado na autobiografia de Jean-Dominique Bauby, editor da revista Elle francesa que após um repentino derrame se encontra preso dentro de si mesmo, 100% consciente mas incapaz de mover qualquer músculo a não ser sua pálpebra esquerda.

Os especialistas chamam de "sindrome de locked-in", traduzida por Jean-Dominique como a esperiência de se estar preso e imóvel em um escafandro que flutua pela vida, descrição perfeita do que vivemos nós, os espectadores ao assistir ao filme.

O diretor Julian Schnabel segue o caminho ditado pelo livro (que mais tarde descobrimos ter sido ditado pela pálpebra do protagonista) ao contar o filme em 1a pessoa e acerta em cheio quando decide não colocar Jean-Do como um pobre diabo, mas sim prender a platéia dentro de seu corpo e assim nos colocar na completa e desesperadora imobilidade da síndrome, só quebrada pelas piscadas e ótimas tiradas de humor negro do próprio autor-paciente.

Num primeiro momento o filme é apenas incômodo mas, assim como seu narrador, vamos nos acostumando, entre uma angústia e outra, entre uma tirada cômica e mais alguma descoberta da vida pré-acidente do escafandrista. Após muitos pensamentos que só nós escutamos, uma fonoaudióloga desenvolve um método que permite que o paciente vá soletrando palavras piscando quando a letra é dita por ela. Para nós espectadores que vamos piscando letra a letra para as enfermeiras não há nada mais sufocante.

O filme é angustiante, a situação de Jean-Do dramática, mas o que torna o filme forte são as relações humanas que ele reavalia. Se você se encontrasse preso em seu corpo com um último fio de comunicação com o exterior, qual seria seu último texto ao mundo? Escreveria cartas a seu pai? Escreveria um livro de auto-ajuda?

Para mim o filme é muito bom primeiro pelo fato de se saber filme, segundo pelo fato de nos tocar pela identificação com os defeitos e angústias, e não por qualquer tipo de caridade cristã, e por fim, por ser um filme simples porém belo, por ser bem executado sem precisar dar muitas piruetas.

Pode ser ato-reflexo, quase óbvio-ululante, mas é impossível não perguntar, não estaremos todos nos afogando dentro de nossos escafandros?

Sunday, August 10, 2008

Filme 4/52: Il filo pericoloso delle cose [in Eros]

Il filo pericoloso delle cose [in Eros - 2004]
D: Michelangelo Antonioni
R: Michelangelo Antonioni e Tonino Guerra
F: Marco Pontecorvo
http://www.imdb.com/title/tt0343663/


A partir de uma idéia de Antonioni e de Stéphane Tchal Gadjieff, o projeto Eros foi iniciado com o propósito de unir diretores de gerações diferentes para discutir a visão do amor. Os diretores escolhidos foram o próprio Antonioni, Steven Soderbergh (Traffic, 11 Homens e 1 destino, etc) e Wong Kar Wai (Amor à Flor da Pele, Um beijo roubado, etc.).

Li alguns comentários do filme como um todo, e todos são unânimes em dizer que a parte do Kar Wai é perfeita, a de Sonderbergh divide opiniões e a maioria acha "Il filo pericolloso delle cose" do grande Antonioni ruim.

Não posso opinar sobre os outros, pois desde a primeira vez que vi a parte de Antonioni fiquei absolutamente fascinado e não consegui avançar para os outros. Vi e revi estes aprox. 28 minutos diversas vezes e a cada vez eles me diziam mais. Ou seja, para mim, estes críticos não entenderam nada de "Il filo...".

Sempre que vejo filmes do Antonioni isto acontece. Ao final do filme entende-se mais ou menos a história, mais ou menos o propósito do filme, mas fica-se com a sensação de que há várias camadas por baixo da história superficial projetada na tela. É como se tivéssemos acesso à mente do diretor por algumas horas, como se estivéssemos vendo seu consciente e sub consciente ao mesmo tempo. Vê-se, ou melhor, sente-se o que ele está dizendo e pensando, mas, é preciso certo tempo para que todas estas imagens, cenas e símbolos aflorem e entendamos o que eles querem dizer.

O roteiro seria simples se não nos atentarmos aos detalhes. O título do filme, "Il filo pericoloso delle cose", ou "O fio perigoso das coisas", parece ser um alerta para que isto. Christopher e Cloe, um casal com a relação já bastante desgastada sai para almoçar. Lá avistam uma garota, com quem Christopher se envolverá e a quem mais tarde Cloe encontrará. Nada demais. A fotografia é linda e bem cuidada, planos longos, poucas falas, e por isto mesmo, recheada de linguagem simbólica, mas numa análise superficial, um filme apenas médio. O filme é recheado de cenas de nudez e aparentemente isto é a grande controvérsia que faz as pessoas acharem tudo gratuíto e despropositado. Mas a meu ver não é bem assim.

Cloe e Linda são contradições no sentido dialético. Linda é a não-Cloe. Cloe, que passa a maior parte do filme seminua ou com uma blusa totalmente transparente se torna o amor no plano inconsciente, enaquanto que Linda representa mais o amor mundano-carnal. O idealismo projetado por Cloe fica claro na cena próxima do final, quando Christopher liga de Paris e os dois percebem que têm saudades. Fica também clara a referência simbólica quando se aproximam do lago onde há ninfas, mas especificamente crinéias, comumente vistas com simbolos das musas, e se perguntam "por que não haviamos vindo aqui antes?". É como se nunca tivessem se dado conta que seu amor se dá na universo da emoção, não da razão.

Aliás, esta dialética entre o Pathos (emoções) e do Ethos (razão) aparece em outros simbolos ao longo do filme. Quando Cloe e Christopher saem de carro, eles primeiro vão para a esquerda (lado da emoção), param, voltam, e partem para a direita (lado da razão). Quando Linda chega à cavalo, ela monta um cavalo branco e encarna o mito de Perseu, herói mitológico que em sua jornada se confronta com as várias facetas do feminino. Ela entra no restaurante e pede maçãs (fruto do pecado original) e em seguida Cloe vira uma taça e a rola no chão, representando, na mitologia do Tarô, a traição, na trajetória do naipe de copas, ligado ao elemento água, os sentimentos.

Quando Christopher vai atrás de linda em sua torre, ela traz consigo um bastão, simbolo do naipe de paus, ligado ao elemento fogo e representa o espirito aventureiro e a imaginação criativa que produzem os fatos além de nosso entendimento. Ao entrar na torre, arcano de grandes transformações, Linda avisa, "espero que não se importe com o caos". "que tipo de caos?", "o caos total". É a paixão que revolverá toda a vida e os sentimentos.

A cena de sexo entre eles é cheia de mistério, aventuas e desafios. Quando ele sobe para o quarto de Linda, ela já nua na cama, pergunta, "Que acontece se eu me deitar?", "te digo meu nome", responde ela, quase num tom de esfinge, de "decifra-me ou devoro-te".

O filme segue todo assim, até que chega a cena final do filme, uma das mais belas que já vi, e que sintetiza toda a visão de Antonioni sobre o amor.

Linda, novamente com um bastão (paus) dança nua, à beiramar de forma livre, sensual, divertida, aventureira. Brinca com o bastão, risca o chão. Depois deita-se ao sol e adormece.
A seguir é a vez de Cloe. De forma muito mais sensível, harmônica, ela também tira a roupa e inicia um balé de movimentos bem coreografados, precisos e belos. Nos remete a Afrodite, deusa da beleza que nasce no mar. Cloe segue dançando até que avista Linda adormecida. Ela se aproxima e, numa cena de plasticidade inigualável, sua sombra acorda a Linda. Para Antonioni o amor e o erotismo se acordam e se provocam e, em sua interação dialética de contradições, amadurecem os sentimentos. Convenhamos, se formos capaz de transpor esta interação entre o Pathos e o Ethos dentro de nós, esta é a história das relações humanas.

Interessante também mencionar que o mito de Eros conta a história do filho de Afrodite, o deus do amor que, enviado por sua mãe para matar Psiquê pelos ciúmes que aquela sentia da beleza da mortal, se apaixona por esta e assim nos conta a história do amadurecimento dos sentimentos.
***
É claro que não é preciso ser especialista em mitologia grega para se tocar por um filme. Jung já provou que a mitologia e os arcanos estão presentes no inconsciente coletivo dos humanos desde os primórdios de nossas civilizações.
Para ver um filme de Antonioni basta ver com os olhos, ouvidos e deixar com que sua intuição faça o resto.